Apatia

n.f.
1. Ausência de sentimentos ou emoções perante situações ou causas que geralmente provocam comoção;
2. Do mesmo significado de indiferença ou impassibilidade;
3. Ausência ou escassez de energia ou vitalidade; preguiça ou ociosidade;
(Etm. do grego: apátheia)

 

Vinha se arrastando pela vida havia meses, sem metas que despertassem o ânimo – no sentido mais literal e profundo da palavra, alma -, sem motivos para festejar, sem interesse. Apática. As festas não mais a atraíam como outrora. As amizades pareciam superficiais. Episódios novos de seriados não mais causavam comoção. O único resquício de sensibilidade ainda era a reação ao estímulo musical. Música sempre era a melhor opção para qualquer momento, a alternativa perfeita para acompanhar o autoisolamento crescente dos últimos meses. Ela parecia tão normal, comum, ordinariamente comum em sua simpatia, em seu jeito de bem com a vida, é claro que ninguém suspeitaria. Talvez as recusas para festas dessem alguma bandeira sobre o que estava acontecendo, mas era tudo claramente resolvido com os comentários inocentes das amigas: “tás morgada, né, deixa de ser assim!”. Nada que despertasse maior curiosidade, por que despertaria?

A verdade é que desde sempre, aquela moça sentia uma pressão sobre si mesma, talvez fossem as expectativas? Ela as alcançava, quase sempre. Notas boas, bom comportamento, tudo regular. Família no lugar, disso não poderia reclamar jamais, tinha pais amorosos e cuidadosos, e hoje em dia isso é bem difícil de encontrar. Eles eram, talvez, os únicos que poderiam descobrir o que ela escondia com tamanha maestria, maestria que já era automática. Até então, isso não tinha acontecido. Algumas vezes, os pais a percebiam meio cabisbaixa, mas quem não fica assim vez por outra? Jamais pensariam que o problema era crônico, que eles tinham uma filha quebrada.

Ela era quebrada em tantas maneiras! Quebrada em sua indecisão, em sua insegurança, em sua apatia, em sua falta de confiança em si mesma e nos outros, em sua falta de fé que às vezes a acometia, em sua incapacidade de se abrir com quem quer que fosse, sem parecer autopiedosa, em sua constante distorção da própria realidade. Tudo nela, externamente, parecia tão feliz e tão normal, talvez até brilhante, exemplo; ao passo que, internamente, era só o caos. Caos principalmente porque ela percebia o caos que se passava dentro dela, mas não conseguia sentir realmente o caos, ou agir sobre ele. Ela apenas se refugiava em música, em leituras – as que ainda tinha paciência e algum ânimo para fazer -, esperando que a solução chegasse, sem conseguir pensar no que fazer quanto a isso.

A moça estava quase inerte.

 

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